Como os Determinantes Sociais de Saúde desafiam a prevenção e o tratamento do câncer

*Foto: Ministério da Saúde

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que haverá 704 mil casos de câncer por ano no Brasil até 2025. Dados como esse apoiam gestores públicos e privados e profissionais de saúde a definirem estratégias amplas e eficazes para combater a incidência e a prevalência da doença. 

À medida que cresce a demanda por serviços de saúde, é necessário pensar em caminhos para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS). O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em parceria com a Umane, lidera a iniciativa Agenda Mais SUS: Evidências e Caminhos para Fortalecer a Saúde Pública no Brasil, que demonstrou deterioração em diferentes indicadores associados aos Determinantes Sociais de Saúde (DSS) no país.

Primeiro, é importante relembrar que os Determinantes Sociais da Saúde são fatores socioeconômicos, culturais, étnicos, psicológicos e comportamentais que influenciam doenças e seus fatores de risco. Raça, sexo, idade, educação, meio ambiente, acesso a serviços de saúde, alimentação e condições de renda e moradia são alguns exemplos.

Neste cenário, como os DSS impactam o surgimento, diagnóstico e tratamento de câncer entre as populações mais vulneráveis? Conheça o diagnóstico conforme diferentes grupos sociais.

Raça e etnia como determinantes sociais para o câncer

Segundo o blog do Observatório da APS, citando dados de 2023 da pesquisa Covitel, 58,7% da população negra no Brasil avalia a própria saúde como boa. A percepção positiva aumenta para 62,8% quando se desconsidera o recorte étnico-racial e para 68,8% entre as pessoas brancas.
Também há diferencial racial no acesso a serviços de atenção à saúde no que diz respeito ao câncer. Um estudo de 2020, apresentado no Diagnóstico n. 4 “Condições de Vida e Saúde” da coletânea “Mais SUS em Evidências” revela que mais de 40% das mulheres negras têm o diagnóstico tardio de câncer de mama, o que contribui para que a sobrevida delas seja até 10% menor do que a de mulheres brancas.

Dados do Vigitel sobre mamografia reforçam o impacto do diagnóstico tardio: mulheres pretas (53,8%) e pardas (57%) representam os grupos com menor taxa de realização do exame. É fundamental que os formuladores de políticas de saúde abordem e tomem ações práticas para que o racismo e as disparidades raciais não gerem implicações para algumas parcelas exclusivas da população.

Entenda a relação entre poluição do ar e câncer

Pesquisas nacionais e estrangeiras têm evidenciado que a exposição a poluentes presentes no ar está associada a um aumento de casos de câncer. Câncer de pulmão, nasofaringe, esôfago, estômago e bexiga são alguns dos mais prevalentes.

A realidade é que quase toda (99%) a população mundial respira ar fora do limite de qualidade recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), conforme o Diagnóstico n. 4 da coletânea “Mais SUS em Evidências”. Mas, em países de alta renda, 17% das cidades estão dentro desses parâmetros, enquanto nas nações de baixa renda o índice cai para apenas 1%.

No Brasil, fatores socioeconômicos, combinados à poluição do ar, impactam negativamente a vida da população com menor índice de escolaridade. Dados do SIM-DATASUS de 2022 registraram 29.576 mortes por câncer de traqueia, brônquios e pulmão naquele ano – mais da metade (16.655), são pessoas com zero a sete anos de estudo.

Boa alimentação é aliada contra o câncer

A má alimentação é um dos principais fatores de risco modificáveis para condições crônicas não transmissíveis (CCNTs). Como parte do compromisso com a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) do SUS, o Ministério da Saúde publicou o Guia Alimentar para a População Brasileira, que indica que alimentos in natura ou minimamente processados sejam a base da alimentação.

Leia também: Alimentação e nutrição: o que propõe o SUS 

A recomendação é valiosa, pois há relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e a incidência de cânceres. No entanto, o consumo de ultraprocessados é crescente e aumentou 5,5% na última década no país, de acordo com pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). Este grupo de alimentos corresponde a 20% das calorias consumidas pelos brasileiros. 

Pessoas do sexo feminino, brancas, adolescentes, com maior renda e escolaridade são as que mais consomem ultraprocessados. Porém, nos últimos dez anos, os maiores aumentos foram

justamente entre a população que menos os consome: pessoas negras e indígenas, com menores níveis de escolaridade e renda e moradores da área rural e das regiões Norte e Nordeste.

Dados e análises sobre os DSS no Brasil e seus impactos são essenciais para nortear ações que visem o bem-estar e a qualidade de vida de toda a população, especialmente dos grupos mais afetados. Identificar as desigualdades e os principais desafios é fundamental para elaborar planos de ação e implementar políticas públicas que contribuam com a equidade no acesso, na utilização e na qualidade dos serviços de saúde ofertados para as pessoas que vivem no Brasil, um dos princípios do SUS. 
Para continuar lendo, acesse a coletânea de blogs sobre câncer publicados no Observatório da APS, ou faça pesquisas e comparativos de dados usando a plataforma completa e gratuita, que é uma iniciativa da Umane.

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