Estratégias de grantmaking: o caso da Umane

A Umane é uma associação civil independente, isenta e sem fins lucrativos, que administra um fundo patrimonial e apoia iniciativas no âmbito da saúde pública.

Com o objetivo de contribuir com um sistema de saúde mais resolutivo e melhorar a qualidade de vida da população brasileira, a associação financia iniciativas que trabalham pelo fortalecimento da atenção primária, saúde materno-infantil, enfrentamento às condições crônicas e promoção da saúde.

A associação optou por valorizar a expertise de tantos atores espalhados pelo Brasil que já trabalham focados nessa causa. Por isso, adota um perfil exclusivamente grantmaker. Nessa trajetória recente, já soma aprendizados, como a importância do estabelecimento de parcerias, para atuar em desafios complexos, como é o caso da saúde pública.

Confira a seguir as escolhas e os caminhos percorridos pela associação. O material foi elaborado a partir de uma conversa com Evelyn Kowalczyk dos Santos, coordenadora de projetos na Umane e responsável pela criação e articulação desses projetos junto aos parceiros.


CRIAÇÃO

Com a venda do Hospital Samaritano, em 2016, houve a criação de um fundo patrimonial responsável por manter a então recém-criada Associação Samaritano – atual Associação Umane. Com um novo nome e marca, a Umane se estabelece como uma entidade filantrópica independente, com atuação social no âmbito da saúde pública brasileira.

Parte dos rendimentos obtidos na gestão do fundo patrimonial é utilizada anualmente para o investimento em projetos de promoção à saúde e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), aspectos que o sistema público de saúde encontra dificuldades em garantir.


O segredo da prevenção e promoção de saúde

A missão de apoiar iniciativas transformadoras de prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e a promoção de saúde que impactem a qualidade de vida dos brasileiros não foi escolhida por acaso. Isso porque diversas pesquisas indicam que investir na prevenção traz retornos até sete vezes mais altos do que o valor inicialmente aplicado, o que, por sua vez, significa melhoria da qualidade de vida da população no presente e uma economia financeira no futuro com a saúde. 

Além disso, observando o cenário no Brasil e no mundo, a Umane notou a oportunidade de atuação com esse viés, tendo em vista a cultura ainda fragmentada e hospitalocêntrica, isto é, que coloca hospitais e clínicas como principais atores do sistema de saúde, restando, portanto, atenção insuficiente por parte das políticas públicas a etapas fundamentais como a prevenção de doenças e atenção primária à saúde.

Outros fatores também influenciaram na forma que a Umane decidiu se estruturar internamente em termos de programas e frentes de apoio e atuação. O funcionamento do sistema público de saúde é um desses fatores e, pensando em facilitar e potencializar a interlocução com gestores públicos, a Umane optou por criar três programas e linhas de apoio:

  1. Programa de Atenção Integral às Condições Crônicas; 
  2. Programa de Fortalecimento da Atenção Primária à Saúde como ordenadora do cuidado no SUS;
  3. Programa de Saúde Materno Infantil e Juvenil. 

As três áreas foram também definidas por serem janelas de oportunidade de prevenção. O fortalecimento da atenção primária à saúde é fundamental à medida que é a base para a organização do sistema de saúde como um todo, já que um acompanhamento de atenção primária e universal forte é capaz de entregar resultados para todos os outros níveis de atendimento. 

A saúde materna e juvenil é uma área na qual o Hospital Samaritano contava com expertise e parcerias relevantes e, sendo assim, a Umane optou por dar seguimento a essa atuação. E, por fim, a atenção integral às condições crônicas se mostra ainda muito relevante no país, pois, mesmo a sociedade sabendo dos fatores de risco e a importância da prevenção, na prática, os casos ainda continuam aumentando. 

Ao escolher essas três áreas, o objetivo da instituição é aliar o potencial de retorno dos investimentos a uma atuação relevante. 

Descentralização, expertise e grantmaking

Compreender que não existe uma solução única para um desafio altamente complexo como a saúde pública no Brasil foi um dos principais fatores que levou a Umane a optar por ser exclusivamente grantmaker.

Com isso, ao invés de criar uma equipe interna de especialistas em diversas áreas da saúde, o que, por si só, seria muito desafiador e custoso, a associação confia no conhecimento de seus parceiros implementadores, compreendendo que são eles que melhor compreendem as especificidades e as necessidades de cada território. 

Essa é uma estratégia para, além de fortalecer atores e organizações locais, desenvolver e apoiar iniciativas robustas e estruturantes, promovendo uma abordagem sistêmica para desafios complexos, tal qual o campo da saúde precisa.


PRÁTICAS

Ética, compromisso com a sociedade, respeito pela missão da instituição, perenidade e vontade de fazer o bem são valores que perpassam práticas internas e externas da Umane. 

Isso porque, por contar com um fundo patrimonial próprio, cujos rendimentos são utilizados no apoio a projetos na área da saúde, a associação é isenta de qualquer tipo de interesse privado, sendo sua principal preocupação promover avanços na área da saúde pública brasileira. Esses princípios também são utilizados na busca por parceiros e implementadores de projetos. 

Ainda, a associação tem uma crença na importância de trabalhar em parceria e articulação com o Sistema Único de Saúde (SUS), para que seja possível alcançar seu objetivo de impactar a saúde pública de forma sistêmica. Por isso, busca organizações que atuem junto ao SUS e que queiram desenvolver novos formatos, programas e serviços nos territórios em parceria com gestores e serviços de saúde do próprio Sistema.

A diversidade dos métodos de seleção 

A Umane não conta com um modelo de seleção de projetos único. Conforme a necessidade, escopo, território e desafio, pode lançar mão de diversos formatos de seleção, como editais, carta-convite, busca ativa e indicações, já que sua prioridade é organizar o apoio, o grant, com o objetivo de alcançar e promover um resultado, com menos foco na continuidade de uma prática de seleção em si.

Além do próprio site da Umane contar com um campo destinado à inscrição de projetos e contato com a instituição, atualmente a associação tem trabalhado com busca ativa de organizações e temáticas nas quais deseja atuar ou indicação por parte de parceiros. A estratégia foi definida principalmente considerando a equipe enxuta da Umane, se comparada ao volume de projetos apoiados, o que reforça a necessidade de pensar sobre uma alocação de esforços mais direcionada e eficiente. 

Entre os pontos positivos da estratégia de busca ativa estão a flexibilidade quanto à duração do apoio, já que muitas instituições têm janelas de atuação muito rígidas caso estejam conectadas a políticas públicas e oportunidades nos territórios. Isso inviabiliza, por exemplo, que aguardem o tempo de um edital. Além disso, esse modelo de seleção também permite que a Umane e a organização parceira entendam mutuamente seus valores, princípios, expectativas e orientação estratégica, já que todo o processo é definido de forma colaborativa e participativa. Assim, a busca ativa possibilita que os projetos estejam adequados e alinhados ao que as duas instituições precisam. 

Edital e carta-convite são dois tipos de modelos de seleção ainda não utilizados, mas que constam nas possibilidades futuras. 

Aplicação de critérios 

Mais do que a forma como o projeto foi selecionado, o que mais impacta na decisão de apoio é o alinhamento temático e forma de atuação alinhados à missão da Umane. 

Assim, são apoiados somente projetos ou iniciativas de organizações da sociedade civil, sem fins lucrativos ou sem qualquer tipo de repasse de recursos aos cofres públicos, e que tenham como objetivo impactar a saúde pública a partir de ações de prevenção e promoção da saúde ou fortalecimento da atenção primária à saúde. 

A Umane avalia também se as iniciativas contam com planos de sustentabilidade financeira ou construção de capacidade para continuidade da ação ao longo do tempo, bem como articulação com o poder público. 

O território de atuação não se limita a um estado, e pode acontecer em todo o Brasil. 

Trâmite de projetos e a matriz de avaliação 

Depois que a organização ou projeto é mapeado ou indicado à Umane, tem início o trâmite interno para que a organização se torne parceira executora. A equipe de prospecção realiza reuniões iniciais com diversas organizações para que as duas instituições se conheçam melhor e a Umane avalie se o projeto tem aderência ao mandato da instituição. 

Em caso positivo, a organização recebe documentos para preenchimento, que são analisados pela equipe de projetos, que pode fornecer feedback. Com a documentação pronta, é a hora da reunião com a equipe de monitoramento e avaliação, que, junto com a organização a ser apoiada, montará uma matriz lógica de avaliação, com indicadores de monitoramento e acompanhamento para todo o ciclo desse projeto, enquanto for apoiado pela Umane. 

A matriz é realizada antes mesmo do projeto estar, de fato, aprovado para receber financiamento. Isso porque ter uma estratégia de avaliação desde a primeira fase facilita que as atividades executadas realmente estejam direcionadas para alcançar o objetivo da proposta, além do fato do processo de monitoramento ser desenhado para facilitar o aprendizado.

Além disso, a associação adota uma postura de não estabelecer prazos rígidos para potenciais parceiros, compreendendo que, por atuarem junto ao setor público, muitas organizações dependem de prazos externos para desenvolver seus trabalhos. 

Todos esses materiais, incluindo o escopo do projeto e o modelo de avaliação, são apresentados pela organização proponente para o comitê de filantropia, que recomenda ou não sua aprovação e aprofundamento das informações, e, posteriormente, o projeto pode seguir para apresentação à diretoria e conselho de administração da Umane, que farão uma avaliação para definir se o apoio será efetivado.

Acompanhamento individualizado 

Por se tratar de uma gama variada de projetos possíveis dentro da área da saúde, a Umane também adota um monitoramento individualizado para cada iniciativa apoiada. Um projeto de pesquisa, por exemplo, que futuramente irá resultar no lançamento de um artigo, pode não demandar o mesmo grau de acompanhamento de uma iniciativa que atua em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS) de uma determinada região em situação de vulnerabilidade em São Paulo, por exemplo. 

A associação solicita reportes para alimentar os relatórios trimestrais de prestação de contas, pactuados de forma personalizada, assim como as visitas a campo e reuniões periódicas. 

Outra prática comum é a união do processo de acompanhamento para iniciativas que são apoiadas pela Umane e por um cofinanciador. Ou seja, com o objetivo de simplificar a prestação de contas, a associação e cofinanciadores podem optar por um processo único, para que as organizações reportem os resultados a ambos de uma só vez. Com isso, a ideia é que o parceiro implementador passe a maior parte do tempo de fato desenvolvendo a iniciativa, e o mínimo tempo possível prestando contas.

Além disso, a Umane acredita que processos avaliativos devem ser conduzidos de forma a garantir o aprendizado de todos os envolvidos. Isso significa que, durante a avaliação, ao final do primeiro ano de um projeto, com duração prevista de três anos, por exemplo, é possível repactuar ações e rever indicadores, caso a execução da iniciativa não esteja saindo como o planejado. Por isso, a importância de todos os profissionais estarem alinhados aos indicadores e metas pactuados ao início de cada apoio, e aproveitarmos o momento de avaliação como aprendizado, em um processo de melhoria contínua.

Atuação incipiente 

Por mais que a atuação do investimento social privado tenha crescido na área da saúde durante a pandemia de Covid-19, a saúde pública ainda não conta com a atenção, volume de investimentos e número de organizações suficientes do ISP para o tamanho do desafio que a área representa ao Brasil. 

Há uma gama de serviços que o SUS presta todos os dias à população, como a vigilância sanitária, que vão além do atendimento em unidades hospitalares, sendo, portanto, do interesse de todos que a área receba mais investimentos e atenção.

Nesse sentido, a Umane compreende que é importante incentivar o debate sobre o tema e fazer um chamamento para que outras instituições passem a atuar nessa agenda. 


APRENDIZADOS

Pensando historicamente em novos formatos de trabalhar melhor o tema da saúde pública, de forma a impactar o máximo de vidas possíveis, a Umane busca compartilhar alguns aprendizados a partir do seu trabalho nestes três anos enquanto associação formalmente constituída. Confira:

  • Importância da visita a campo 

Para evitar a implementação de práticas nos territórios a partir da visão de profissionais e organizações que não conhecem a realidade daquele local, a Umane aposta na visita das iniciativas apoiadas, com o objetivo de conhecer as comunidades e entender as dinâmicas locais. Isso se torna ainda mais importante na área da saúde, considerando, por exemplo, que duas UBS em um mesmo município, mas em regiões diferentes, podem apresentar grandes diferenças entre si. A ideia é compreender como melhor apoiar os projetos ao longo do tempo. 

  • SUS e perenidade do serviço 

Construir um hospital e uma unidade de atendimento em um bairro específico – que demandam investimentos vitalícios – não representa uma opção viável para resolver o desafio da saúde. A Umane compreende que atuar com o SUS é sinônimo de uma visão de longo prazo e sustentabilidade do investimento para realmente alcançar um impacto sistêmico. Mesmo assim, foi preciso, ao longo de sua atuação, entender o melhor desenho para essa atuação conjunta, compreendendo que os tempos de setor público são diferentes e que imprevistos e eventuais atrasos nos planejamentos devem ser considerados desde o início. 

  • Causas raiz e possíveis soluções 

Foi necessário compreender que diferentes territórios podem ter desafios com a mesma causa raiz, mas com propostas de soluções completamente diferentes, a depender das especificidades das localidades. Ou seja, não se trata de replicar uma solução que deu certo da mesma forma em todo o país, mas entender cada contexto e ter opções para endereçar as melhores soluções potenciais para aquele território junto aos gestores públicos. 

  • Relação de parceria com gestores públicos 

Promover relações de parceria com gestores públicos, reforçando que não se trata de substituir o trabalho desses servidores, é outro ponto importante. Para a Umane, é fundamental entender onde a organização pode somar, garantindo que cada um preserve suas capacidades e vocações. Iniciativas alinhadas às prioridades identificadas por gestores públicos para aquele território tendem a se desenvolver mais rapidamente do que projetos desenhados por organizações que não conhecem a realidade do local em questão. 

  • Confiança e parceria com instituições implementadoras 

A Umane entende que não é conhecedora de todos os temas existentes dentro da grande área da saúde. Por isso, adota uma postura de confiar na expertise e conhecimento daqueles que vivenciam diariamente as maiores necessidades dos territórios. 

  • Atualização sobre evidências mundiais de saúde pública 

A Umane entende como indispensável manter-se atualizada no que tange às regulamentações, recomendações, evidências de saúde pública e direcionamentos com base em evidências científicas publicados por órgãos como Organização Mundial da Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde, Ministério da Saúde, entre outros, que visam permitir uma vida mais saudável à população. Trabalhar de acordo com essas diretrizes é a garantia de que todos estejam alinhados.


*Este texto foi elaborado pelo Estudio Cais a partir de entrevista com Evelyn Kowalczyk dos Santos, coordenadora de projetos na Umane. Imagem do projeto Experiências que Alimentam (realizado pelo CREN), do Programa de Saúde Materno Infantil e Juvenil.


Fonte: GrantLab.

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